A volta ao mundo em 80 vinhos - a Geórgia

Atualizado: Jun 22

Porque quando aprendemos sobre vinho também viajamos, "A Volta ao Mundo em 80 vinhos" começa na Geórgia, o país que reclama para si, a invenção do vinho.


Onde é que fica a Geórgia?

A Geórgia faz fronteira:

1/ a norte com a Rússia

2/ a sul com a Turquia, o Azerbeijão e a Arménia

3/ a oeste com o Mar Negro


As condições são boas para a viticultura porque os Verões raramente são excessivamente quentes (graças à humidade do Mar Negro), e os Invernos são temperados e sem geada (graças aos ventos secos que vêm de leste, da Ásia Central). Além disso, as montanhas à volta das vinhas são abundantes em nascentes de água.


O vinho nasceu na Geórgia?

A Geórgia não é o único país a reclamar para si a invenção do vinho, mas parece ser aquele que tem um melhor caso em termos arqueológicos para o provar. Perto da capital, Tbilisi, em Gadachrili Gora, foram encontrados recipientes de barro com 8000 anos, que não só estão decorados com cachos de uva, como têm vestígios de ácido tartárico (um ácido que existe nas uvas). Além disso, análises ao pólen mostram que as colinas da região tiveram videiras plantadas pelo menos desde 6000 a.C. O país tem 525 castas indígenas (o que se estima ser 1/6 de todas as castas do mundo), o que é mais um argumento que há muito se cultivam uvas ali. Para um país ter um grande património vitícola, tem que existir há muito tempo para ver surgir essa diversidade. A própria palavra vinho vem de “ghvino” – a palavra georgiana.


Hoje, a Geórgia tem 18 denominações de origem em 45000 ha. A região mais importante é Kakheti, a apenas 15 quilómetros a leste de Tbilisi, e produz 70% de todo o vinho da Geórgia.


O que são qvevris?

Os qvevris são depósitos de terracota que têm o formato de um ovo e que são enterrados no chão até ao pescoço. As uvas são parcialmente prensadas, e são colocadas lá dentro com as películas, as grainhas, e às vezes os engaços (a parte lenhosa do cacho), para que o sumo da uva fermente a temperatura constante e regulada pela própria temperatura da terra. Os qvevris ficam abertos – como a fermentação liberta dióxido de carbono, não pode ocorrer num depósito fechado, pois poderia explodir. Assim que a fermentação termina, o qvevri é selado com uma tampa de algodão e cera de abelha ou barro, para ser reaberto meses ou anos depois, quando o vinho é trasfegado para outro qvevri ou para ser engarrafado.

Em 2013, a UNESCO registou o método de vinificação do qvevri na sua Lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade


Levou um pouco de tempo até o qvevri ter o actual formato, visto que no início eram mais largos no meio e cónicos na base, e não eram enterrados. Começaram a ser enterrados apenas no séc. III d.C., primeiro pelos ombros, e no séc. IV já até ao pescoço – em teoria, porque os qvevri foram ficando maiores e mais difíceis de manusear, para não falar no facto de depósitos maiores também significarem uma maior pressão durante a fermentação. Ao enterrarem-nos, perceberam que as temperaturas frescas e constantes debaixo da terra eram uma forma de refrigeração natural durante a fermentação.


Fora da Geórgia, é comum usar o termo de ânfora como sinónimo de qvevri, mas não são a mesma coisa:

1/ Os qvevri são muito mais largos, e depois são enterrados no chão até ao pescoço. As ânforas não estão enterradas, e na Grécia e Roma antigas, eram pequenas e tinham pegas.

2/ As ânforas tradicionais eram usadas exclusivamente para transporte e armazenamento de vinho ou azeite. Os qvevri, por outro lado, sempre foram parte do processo de vinificação, e não são aptos para transporte, não só pelo seu tamanho, mas porque estão enterrados.


Que vinhos da Geórgia devo experimentar?

1/ Os vinhos brancos de maceração prolongada. Há quem lhes chame vinhos laranja (orange wines) pela côr alaranjada resultante do contacto com as películas das uvas, mas a possibilidade de os confundir com os vinhos de laranja (vinhos feitos a partir de laranjas), torna mais consensual a expressão amber wines. São feitos da mesma forma que são feitos os vinhos tintos, com as próprias películas das uvas, tendo por isso uma cor mais alaranjada, com a adstringência de um vinho tinto e a frescura de um vinho branco.

Encontrámos este vinho branco da casta Mtsvane, produzido na vila de Manavi, na região de Kakheti, pelo produtor Gvymarani, na Niepoort Projectos


2/ Os vinhos tintos da casta Saperavi, a casta dominante no país. Tal como as castas portuguesas Alicante Bouschet e o Vinhão/Sousão, é tintureira. Isto quer dizer que a polpa, ao contrário da grande maioria das uvas tintas, é tinta (e não branca), o que confere uma côr mais carregada aos vinhos.


3/ Normalmente os vinhos da Geórgia são secos, mas graças ao mercado eslavo, vinhos doces e meio-doces estão a acrescer em popularidade. É o caso de vinhos como Khvanchkara, o vinho favorito de um dos mais infames filhos da Geórgia: Estaline.



Fontes

-- JOHNSON, Hugh; ROBINSON, Jancis - The Concise World Atlas of Wine (6ª ed.). Mitchell Beazley, 2009

-- https://www.nationalgeographic.com/news/2017/11/oldest-winemaking-grapes-georgia-archaeology/

-- https://georgianwinesociety.co.uk/about-georgian-wines/

-- http://georgianwine.gov.ge/